O   H O R Ó S C O P O

por Asséde Paiva
postado no Benficanet em 13/08/2018

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Chovia torrencialmente.

Era em 1787...

A um quilômetro do Registro de Parahybuna, em um rancho miserável de dar dó, uma fogueira acesa no piso de chão iluminava o ambiente deitando sombras fantasmagóricas nos quatro cantos. As paredes de estuque, cheias de buracos, deixavam passar livremente o frio, a chuva e o vento. O rancheiro estalajadeiro examinava uma figura estranha que se confundia com as sombras. A pessoa indigitada usava uma capa com um capuz que lhe escondia as feições. Seus olhos brilhavam como os de satanás. No momento, ele bebericava uma garrafa de zurrapa de casca de árvore.

Um tropeiro e seus ajudantes: o guia, o arrieiro ou bruaqueiro e um negro forro chegavam naquela hora e abarracaram no mesmo rancho. A tropa vinha do Rio de Janeiro. Assim que espalharam as canastras e cangalhas pelo chão, puseram-se a conversar sobre problemas e soluções da viagem. Doze dias se passaram desde que partiram do Porto Estrela, na falda da Serra, onde nela se perderam três burros, que rolaram do penhasco.

Num tripé ferventava água para o café, e o pó de café espalhou um aroma de dar água na boca.

O rancho, de uma simplicidade extrema: o piso era de chão batido; quatro esteios de braúna em cada canto sustentavam as vigas de peroba; o telhado de folhas de coqueiro. O tropeiro chefe só clamava por pequena melhora no tempo, para seguir viagem em direção a Curral Del Rey e às minas de ouro de Sabarabuçu, Vila Rica e Vila do Príncipe, no antigo Distrito Diamantino.

Enquanto esperavam pelo café, os ajudantes mascavam fumo, e o tropeiro chefe comia lascas de toucinho, após enfiá-los num pote de paçoca.

E o tropeiro dizia bem audível:

–– Na cidade estão comentando sobre a insatisfação dos garimpeiros quanto ao pagamento de impostos e falam numa tal de Derrama que está para ser decretada. Não sei o que querem, porém... esse abuso vai acabar.

Calou-se, porque ouviram batidas na porta.

–– Capitânia, ordenou o tropeiro para o negro: –– “Vai” ver quem bate!

O negro, de porte atlético, levantou-se de perto do fogo e, com a cara muito ruim, foi abrir a porta.

Entraram cinco homens uniformizados: dois soldados, um anspeçada, um furriel e um agaloado alferes, certamente o chefe. Dragões do rei, em patrulha no Caminho Novo da Estrada Real.

O tropeiro levou a mão ao bacamarte, seu auxiliar segurou o punhal no cinto, mas o visitante, o chefe, tranquilizou-os:

–– Não tenham medo, não vou fiscalizar nem prender oceis. Estou apenas querendo enxugar minhas botas ao fogo e comer alguma coisa, com meus auxiliares. Para que tenham ideia de nossos serviços, nós estamos viajando há dias. Descemos a Serra da Mantiqueira, prendemos e enforcamos alguns salteadores, incluindo Montanha, o cigano chefe e seu fidus achatis Beiju. Eles assaltavam os viajantes, à procura de ouro e de pedras preciosas. O perigo lá é tão grande que os viandantes esperam no alto da montanha outros viajores para descerem em grupo de dez ou vinte e enfrentar os quadrilheiros. Acho que resolvi o problema, por hora. Mas temos outros bem mais graves... – e murmurou uma copla muito em voga: – Do Caeté a Vila Rica, / É tudo ouro e cobre. / O que é nosso vão levando, / E o povo aqui sempre pobre!

Sentaram-se ao redor do fogo, o chefe dos milicianos, com a patente de alferes, enfiou uma acha de lenha na pira e agitou-a, a fim de aumentar as chamas. O fogaréu elevou-se com muita fumaça, enevoando o ambiente. Ele perguntou àquele que parecia ser o tropeiro chefe:

–– Ocê, que vem de Rio de Janeiro, quais são as notícias?

–– Não são boas, há agitação entre as gentes. O Governador-Geral está tendo muito trabalho com a escravaria. Há fugas imensas de escravos. Quilombolas se formam na floresta da Tijuca e assaltam os desavisados. À noite ninguém pode sair, porque uma punhalada é quase certa. Se alguém pede socorro, não recebe ajuda. Agora, estão gritando fogo! E muitos aparecem nas janelas, porque têm medo de incêndio. E ocê aonde vai?

–– Eu vou ao Rio tentar obter apoio importante para nossa causa... Suspendeu a frase, receoso de ter ido longe demais. Em boca fechada não entra mosca.

O embuçado estremeceu ao ouvir a palavra “causa”, e sumiu no capote.

–– Não se preocupe senhor alferes. –– É o tropeiro acalmando todos, nós somos civis e não nos envolvemos em assuntos militares.

Então, o alferes continuou a lenga-lenga:

–– Embora eu tenha sido preterido na carreira militar, em favor de portugueses, não reclamo, porém. O Rei, Deus o tenha, não olha nosso Brasil com bons olhos. Até parece que esta terra é o seu quintal. Portugueses mandam nosso ouro para a Corte, cortam nossas matas e levam a madeira para Lisboa. A floresta de pau-brasil está no fim. Os impostos escorchantes pela hora da morte. Não há quem aguente o tal “quinto”, “registros" e "contagens". O Fisco régio cobra impostos sobre escravos, sobre empregos públicos, sobre casas comerciais, dos engenhos de açúcar, da travessia de rios; além de vender pólvora, sal e gêneros alimentícios. Nada pode ser fabricado aqui, tudo vem de Portugal. Há um grupo indignado nas Minas Gerais e, no Rio de Janeiro, também. Vamos fazer desta terra um país independente, soberano.

O encapuzado derramou meia caneca de vinho ao chão e não foi notado porque era uma sombra difusa na sala, enfumaçada.

–– Isso nunca vai acontecer, senhor alferes, contestou o tropeiro. Suas palavras cheiram a sedição ou traição. Aqui, não há brasileiro, nós somos portugueses de aquém- -mar. O Rei é nosso pai e protetor. Somos fiéis a ele e seus súditos mais leais.

Parou de falar, porque se exaltara e deu nova ordem ao negro:

–– Capitânia “vai” ver se nossas bestas não fugiram do cercado. Precisamos delas “arriadas” bem cedinho, o tempo urge.

Mais uma vez, o escravo levantou-se de péssimo humor, quando, de novo, bateram à porta e uma voz de mulher:

–– Abram, por favor, estou ensopada e faminta!

O negro abriu a porta, e andrajosa mulher entrou, correu, sem salamaleques para o fogo, onde se pôs a esfregar e a esquentar as mãos.

Ela tremia e teve um misto de raiva e susto ao ver os soldados.

–– Senhores, eu estou molhada até os ossos, deem-me uma coberta e comida, morro de fome.

De uma canastra tiraram colcha de lã, e a mulher se enroscou mesmo molhada.

O alferes condoeu-se dela e deu-lhe um pouco do seu farnel.

Ela comia avidamente, enquanto olhava o alferes de soslaio.

–– Mulher, perguntou o alferes, o que faz nestas brenhas?

–– Eu pertenço a um grupo cigano. Eles foram emboscados e perseguidos na Serra da Mantiqueira. Muitos foram mortos, outros fugiram para esconderijos na floresta, enfim, para todos os lados. Eu vim me escondendo aqui e ali, comendo bicho de bambu, roendo algum parmito, pegando as “fruta” que encontrava na beira da estrada e dormindo em ranchos abandonados. Vou procurar o restante de meu povo amanhã. Posso ficar aqui esta noite?

–– Pode, disse o tropeiro chefe, e como te chama mulher?

–– Joana. –– E o senhor?

–– Eu sou Joaquim... Joaquim...

E nada mais disse.

–– Que coincidência! –– disse o alferes, que ouvira o diálogo. –– Eu também me chamo Joaquim.

E nada mais disse, nem lhe perguntaram. Aliás, pensava ter falado demais.

E cada qual contando um causo, a noite passou. O bruaqueiro, entrementes, se queixou de dor de dente, que não o deixava em paz.

Alguém lhe passou uma bandana sob o queixo.

O alferes, que entendia de dentes, tinha ferramentas apropriadas. Levantou-se e mandou o bruaqueiro abrir a boca. Concluiu que nada podia fazer, pois era uma cratera que havia naquele dente. Então, abriu sua maletinha, pegou o estilete e futicou um pouco a gengiva inflamada. Coçou a cabeça, pediu um copo de cachaça e deu-a ao homem para beber.

–– Vixe, eu vou ficar tonto!

–– É isso que eu quero, disse o alferes.

E deixou o homem por algum tempo, até que o álcool lhe subiu à cabeça. Depois, pegou sua “torquês”; melhor, o boticão enferrujado, e com ele segurou o dente cariado arrancando-o no ato.

–– Ai, ai, ai! –– Urrou o bruaqueiro.

Mas logo veio o alívio e ele pôde cochilar num restinho de noite.

Pela manhã não chovia mais.

–– Capitânia "arreia" as bestas!

Todos se propunham a cuidar dos afazeres, quando a nômade em retribuição ao acolhimento, pediu para ler a boa fortuna deles. Disse-lhes o que queriam ouvir: todos iam ser ricos, casar com mulheres lindas, achar pepitas de ouro, diamantes, esmeraldas e serem fazendeiros com muitos filhos. Quanto ao negro, ela disse que via uma corda na mão dele.

Claro que ninguém a levou a sério.

Quando o alferes ia saindo, o tropeiro perguntou:

–– Desculpe, qual é mesmo sua graça?

–– Joaquim José da Silva Xavier.

Por último, levantou-se da cadeira aquele encapuzado e caminhou para a porta.

A cigana lhe falou:

–– O senhor não quis que eu lesse sua sorte, pode me dizer seu nome?

Ele fez gesto de negar, fuzilou-a com os olhos, mas aquiesceu e falou:

–– Joaquim Silvério.

Ela leu a alma de bronze do vilão e estremeceu. Quando ninguém podia ouvi-la, murmurou:

“É o destino, numa só noite conheci delator, padecente e carrasco”.

















Tropeiro
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