CIGANOS NA HISTÓRIA DO BRASIL (1568-2005)
E SUA INFLUÊNCIA NA MÚSICA E NA DANÇA POPULAR (Com respingos de folclore)
por Asséde Paiva - 02/02/2015

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Resumo:

 

Referimo-nos aos ciganos no Brasil e esclarecemos várias questões como: De onde vieram? Quando vieram? Por que vieram? Onde foram estabelecidos? O quê comerciavam? Sua influência na expansão territorial, política, música, poesia e na dança. E onde entram no folclore. Focalizamos principalmente sua participação no comércio de escravos. Debret (artista francês que aqui esteve) não viu; se viu, omitiu que portugueses e brasileiros comandavam o tráfico negreiro. E Debret se tornou fonte de referência para os ciganólogos pósteros, que não se deram conta de que os ciganos, excluídos ontem e hoje, jamais poderiam ser grandes ou pequenos traficantes de escravos.

 

 

This work is about the presence of gypsies in Brazil and explains several questions as: where did they come from? When did they come? Why did they come? Where were they established? What kind of businesses did they were involved? Their influence in the our territorial expansion,  politics, music, poetry and in the dance. Their contributions to the folklore. We focused mainly on their involvement in the slaves trade. Debret (the French artist) omitted that Portuguese and Brazilians commanded the slave traffic. And Debret became a reference source for the gypsies researchers, that didn't perceived that the gypsies, excluded yesterday and today, couldn’t ever be a big or a small slave dealer.

 

 

C I G A N O [do grego bizantino athinganos, pelo fr. tzigane ou tsigane.] S. m. 1. Indivíduo de um povo nômade, provavelmente originário da Índia e emigrado em grande parte para a Europa Central, de onde se disseminou, povo esse que tem um código ético próprio e se dedica à música, vive de artesanato, de ler a sorte, barganhar cavalos, etc. [Designam-se a si próprios rom, quando originários dos Balcãs, e manuche, quando da Europa Central.] Sin.: boêmio, gitano, calom. (Novo Dicionário Aurélio, Século XXI, p. 470)

 

A cronologia sobre ciganos no Brasil é um rol de medidas iníquas, injustas, cerceadoras da LIBERDADE mais elementar: o ir-e-vir e estar de um povo. São mais de quatrocentos anos de exclusão e de perseguição sistemática. Um grande líder cigano, Nicolae Gheorghe disse em língua romani: “Projasar man opre pirend ¾ as muro djiben semas opre chengend” [Enterrem-me em pé. Passei de joelhos toda a minha vida]. Por que disse isto? Porque está cansado de ser humilhado.

 

Escrever sobre ciganos é tarefa árdua, alguns pensarão que é tema perfunctório, mas se dissermos que é uma etnia com 300000 a 800000 indivíduos, no Brasil, mudamos de opinião. Vale o esforço. Pesquisei, analisei, busquei, manuseei tudo relacionado com cigano. E vou começar afirmando agora e em outras páginas deste trabalho que cigano, no Brasil, nunca foi escravista e que levou a culpa sem reclamar.

Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?Em que mundo, em qu’estrela tu t’ escondes...

 

Que tem esta frase com os ciganos? Há estreita relação. É de um poema de Castro Alves (1847-1871), em “Vozes d’África.” Ele nos diz muito: é uma metáfora que lembra Jesus pregado na cruz, quando, segundo o Evangelho, em desespero e dor teria perguntado: Pai, por que me abandonaste? Castro Alves fez um apelo à sensibilidade dos homens para que cessassem o comércio hediondo dos escravos. O poeta tem descendência cigana. Está em Gilberto Freyre[1] (1900-1987) que, aliás, só fez em sua obra esta citação favorável aos ciganos. O grande sociólogo, autor de Casa-grande e senzala; Sobrados e mocambos e muitos outros livros sócio-antropológicos, é bastante cáustico com os ciganos.

 

Castro Alves, poeta condoreiro, (1847-1871) em Navio negreiro dá uma pista de quem eram os comandantes dos tumbeiros (navios que traziam escravos para o Brasil). Em certo ponto do seu poema, ele canta: Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança... Então a resposta a uma dúvida está aí: “tumbeiros” eram brasileiros, portugueses e outros, sob a bandeira do Brasil. Incrível! Há quem diga que os ciganos eram donos desses “tumbeiros”. Gastão Cruls, por exemplo. Alberto da Costa e Silva (membro da ABL, escritor, sociólogo e antropólogo de fama internacional), em seu livro Um rio chamado Atlântico, registra, no capítulo Na margem de cá, p. 158, colaboração de Eduardo Portela, o seguinte: “Os negreiros tinham a maioria de suas tripulações formadas por marinheiros negros”...

 

Em História dos ciganos no Brasil (inédito), Rodrigo Corrêa Teixeira (graduado em Geografia, pós-graduado em História, professor), nos informa que para o Brasil vieram ciganos ibéricos e não-ibéricos, ou seja, calom e rom respectivamente. O rom (assim os ciganos querem ser chamados) que aqui chegou mais cedo teria sido Jan Nepomuscky Kubitschek, que trabalhou como marceneiro no Serro e em Diamantina. Casou-se com brasileira. Em seu matrimônio com Teresa Maria de Jesus Aguilar, teve três filhos. O primeiro foi João Nepomuceno Kubitschek, que viria a ser um destacado político; o segundo Carlos Kubitschek e o terceiro foi Augusto Elias Kubitschek, um comerciante com escassos recursos, que viveu toda sua existência em Diamantina; casado com Maria Joaquina Coelho. Uma de suas filhas: Júlia Kubitschek casou-se com João Cesar de Oliveira e foram os pais de Juscelino Kubitschek (médico, deputado federal, prefeito de Belo Horizonte e Presidente da República, (1902-1976), que depois se tornou presidente do Brasil. A genealogia de nosso grande presidente JK, até o bisavô, está no site diamantinanet.com.br

 

Um depoimento sobre a origem cigana de Juscelino foi feito pelo jornalista João Pinheiro Neto (ex-Ministro) às entrevistadoras: Aspásia Alcântara Camargo, Helena Maria Bousquet Bomeny e Maria Luísa d’Almeida Heilborn, para o Centro de Pesquisa e Documentação Histórica (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de onde extraí este texto ipsis litteris:

 

Como o senhor definiria Israel Pinheiro? [Pergunta das entrevistadoras].

“O Israel basicamente é um grande capitão de obras, um grande construtor, um grande realizador, também sem nenhuma preocupação de ordem ideológica. Um pragmático parecido com o Juscelino em muitos pontos, menos na simpatia pessoal. Se bem que quando o Israel queria também era simpático; mas o Juscelino era sempre simpático. O Juscelino era um cigano. Quando fui à Tchecoeslováquia perguntei se havia Kubitschek lá. Aliás, a D. Sara já tinha estado lá e visto no catálogo que há centenas de Kubitschek. Ele era da Boêmia, daí gostar de violão, de música, de dança, de mulher.”

 

Há provas contundentes de que portugueses comandavam o tráfico negreiro. Na Biblioteca Nacional, encontram-se dois documentos básicos: No primeiro, 99D,17,9, em Obras raras, negociantes lusos reclamam perdas e danos. Tem este título: “Das Perdas e Damnos experimentados pelos Negociantes Portugueses, em consequencia dos apresamentos e feitos pelas forças Britannicas nos Navios empregados no resgate de escravos até trinta e hum do mez de Maio de 1814.” (Grafia do original). Segue relação de 35 navios. O outro documento é uma petição de negociantes de escravos contra o estabelecimento da quarentena de navios negreiros. Começa assim: “Dizem os negociantes desta Praça, sócios e consignatários dos de África, que...” [FBN-26,4,112, Seção Manuscritos]. Subscrevem quarenta e seis traficantes, todos portugueses.

 

Ciganos participaram das “Entradas e Bandeiras” que tanto alargaram o território nacional. Há esta pista em Dornas Filho (1902-1962) “Moradores do termo de Mariana e dos distritos de Tapera, Turvo e Calambao representaram contra a “bandeira” do capitão José Leme da Silva e seus irmãos, acusando-os de acoitadores de ciganos”. E também a magnífica frase do prof. Maffesoli[2] nos orienta sobre os deambulantes assim: “Há belas páginas de Gilberto Freyre em Casa-grande e senzala, em que fala de nômades que chegam ao Brasil, são vagabundos, condenados pela justiça etc. e ao mesmo tempo é graças a essa espécie de barbárie que o Brasil pôde existir”.

 

Os ciganos vieram para o Brasil oficialmente em 1574, quando João de Torres, tendo sido condenado às galés, fez petição ao rei dom Sebastião para que comutasse sua pena para degredo perpétuo no Brasil, visto que estava doente e não agüentaria as lides do mar. Entretanto, oficiosamente já estavam aqui desde 1568, quando para cá veio João Giciano, mulher e quatorze filhos[3]. Existiam disposições régias proibindo entrada de ciganos em Portugal e que aqueles que lá estavam, se intentassem manter seus modos de vida e sua língua, deviam ser expulsos para o Maranhão. Em 27 de agosto de 1865, Ordenações do Reino diz o seguinte: “Fica comutado aos ciganos o degredo da África para o Maranhão.” Em 15 de julho de 1686, Dom Pedro II, rei de Portugal, determinou que os ciganos vindos de Castela fossem exterminados e que filhos e netos (de ciganos) portugueses, tivessem domicílio certo ou enviados para o Maranhão.

 

Especulando um pouco, as mais importantes contribuições dos ciganos para nosso país foram negligenciadas pelos historiadores, qual seja, de coparticipantes da integração e da expansão do território nacional. De norte a sul, de leste a oeste, em todos os lugares, lá estavam eles, viajando, negociando animais, arreios, consertando engenhos, alambiques, soldando tachos, levando notícias, dançando, executando atividades circenses, trocando objetos vários e lendo a buena-dicha. Mas como eram? Como viviam? Onde ficavam? Na verdade eram e são como hoje: alegres, prudentes, desconfiados, arredios e excelentes negociantes. Hoje não vendem tantos cavalos; entretanto, quando saíram de Portugal, nos primeiros anos após o descobrimento, à cata de aventuras, aportando em terras de Pernambuco, traziam grande número de eqüinos de raça árabe. Infiltrando esses animais pelo Piauí e por todo o norte brasileiro, formaram as bases ancestrais dos nossos cavalos nordestinos, que apresentam todas as características do sangue árabe. Gustavo Barroso[4] (1888-1959), em seu texto A raça, admite que os ciganos tiveram grande influência no povoamento do Ceará, este tema até hoje permanece obscuro; merece ser aprofundado. O governo de Pernambuco não só os expulsou para o Ceará, como também os encarcerou na Ilha de Fernando de Noronha (1739). Isto é fato, pois há uma belíssima poesia, a “Cigana do cajueiro”, coligida por F. A. Pereira da Costa[5] (1851-1923).

 

Portaria de 1718 mandava prender todo cigano que andasse pela Bahia, com ou sem licença do governo e, na Carta de 1725, mandava caçar todos ciganos que resistissem; isto é, que fossem passados pelas armas. Apesar da perseguição interminável, o número de ciganos na Bahia cresceu tanto que foram obrigados a concentrarem-se em um bairro, a Mouraria, e depois em outro, Santo Antônio do Além do Carmo.

 

Com relação a Minas Gerais, terra proibida a estrangeiros, e os ciganos eram assim considerados, eles enfrentaram a situação e, naturalmente, como todos os homens e mulheres da época, procuraram enriquecer-se com ouro e diamantes, quer garimpando, quer negociando com garimpeiros. Existem bons livros sobre ciganos em Minas Gerais, entre eles exalta-se o de João Dornas Filho. Mas quem o lê verifica a via-crúcis dos ciganos em MG. Não tiveram sossego, jamais. Perseguidos sempre, andavam de periferia em periferia das cidades, acampavam nos inóspitos lugares e negociavam ou montavam seus teatros mambembes e liam a buena-dicha. Eram detestados em Minas desde 1761, mas claro, estavam lá antes disso. Dornas Filho é quem nos indica que os ciganos procediam de todos os lados: de Belém do Pará, Maranhão, Ceará, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro, Pernambuco/Recife, confirmando a tese de que estavam em todo território brasileiro, desde cedo, e ajudando a ampliá-lo. Andando sem parar pelas estradas que não passavam de trilhas. Foram conhecidos também como judeus, turcos, gringos e mascates. E quanta culpa levaram por causa dessa confusão étnica e profissional!

 

Ciganos que aportaram no Rio de Janeiro foram expelidos para o Valongo[6] em 1771, local pantanoso e mais infecto da cidade. Leia em Vivaldo Coaracy[7]:

No ângulo cujos lados as duas propriedades formavam ficava uma área que parece ninguém pretendera por inaproveitável. Constituída de brejos e alagadiços que as menores chuvas inundavam, tinha fama de pestilenta pelos miasmas que dela exalavam. Os pauis que formavam tornavam-na imprópria tanto para a lavoura como para que nela se erigissem construções permanentes. Nesse pantanal abandonado e desprezado, onde ninguém os viria incomodar, ergueram os seus míseros e toscos casebres de moradia os ciganos.

 

Quando a real história do Valongo for escrita, vão reconhecer o pioneirismo dos ciganos, pois foram eles que desbravaram aqueles pântanos onde hoje se situam os bairros Saúde, Gamboa e rua do Livramento. Quando o comércio de escravos foi desviado da Rua Direita, hoje Primeiro de Março, para o Valongo, os ciganos passaram a ser culpados pelo escravismo. Depois, com o saneamento da cidade, foram expulsos do Valongo, dispersaram-se, alguns tornaram-se andadores do rei ou meirinhos honestíssimos, como nos diz Mello Morais Filho[8] (1844-1919). Os ciganos no Rio de Janeiro foram mais que meirinhos ou negociantes ou leitores de buena-dicha, também influíram na música e na dança popular. Faz parte do nosso imaginário e podemos afirmar que, quando falamos cigano, pensamos música.

 

Leiam no ótimo artigo de Ary Vasconcelos[9], na revista Piracema n. 1, ano 1. p. 107, o seguinte: “... e posso hoje, em primeira mão para Piracema [revista], oferecer dados novos que modificam e ampliam a história do samba, dando aos ciganos uma importância fundamental, até hoje totalmente desconhecida, e reciclando toda a geografia do gênero. Segundo informações de Pixinguinha e João da Baiana, cinco eram os principais redutos do samba na segunda década do século. [Interessa apenas o n. 1, para o caso em tela: A casa da tia Ciata].[10] Pelo Telefone nasceu na casa da tia Ciata. [...]. É que Pixinguinha e João da Baiana me revelaram que havia um grupo de compositores, cantores e músicos ciganos que cultivavam o samba com grande maestria e que trouxeram também uma contribuição importante, talvez decisiva, ao gênero. Eles mencionaram um deles ¾ o Saudade ¾ excelente cantor de sambas e que também freqüentava a casa da tia Ciata” .

 

A informação abaixo colhi em Vozes[11],onde está publicado excelente artigo do ciganólogo Ático Vilas-Boas da Mota[12], pp. 527-30, sob o título Ciganos: folclore e animais.

A presença dos ciganos no folclore brasileiro ainda não foi totalmente dimensionada nem estudada de maneira sistemática, isto é o que dela se sabe só nos chega de maneira esparsa ou fragmentária, valendo ressaltar que tal não significa inexpressividade.[...] Acredito, no entanto, que a influência cigana em nosso folclore, é muito maior do que à primeira vista se poderia imaginar.

 

Em trabalho recente e erudito, Samuel Araújo[13] e Antônio Guerreiro[14] apresentaram e defenderam a tese de que há muita contribuição cigana na música popular brasileira, citando Rugendas, in Viagem pitoresca através do Brasil, que o lundu era, na coreografia, no sapateado e na instrumentação, carregado de nuanças das danças ciganas.

 

Encontra-se em As mulheres de mantilha, p.110, de Joaquim Manoel de Macedo, informação de que, bem ou mal fundamentado, o lundu seria “imitação da zarzuela espanhola”, o que nos leva de volta aos ciganos e seus trejeitos.

 

Uma das brincadeiras mais estimadas no carnaval do Recife é a La ursa, cujas origens encontram-se nos ciganos da Europa que percorriam a cidade com seus animais, presos numa corrente, dançando, de porta em porta, em troca de algumas moedas, ao som da ordem: dança la ursa. Mostradores de ursos também eram encontrados no interior de Minas Gerais, segundo Dornas Filho.

 

O traje cigano tem servido, ao longo dos tempos modernos brasileiros, de sugestão para fantasias de foliões, além de motivos para carros alegóricos durante nossos carnavais, a exemplo do que vem acontecendo com o traje da “baiana”, estilizado pela famosa cantora Carmem Miranda (1909-1955). Evidentemente, estes últimos exemplos se enquadram no metafolclore ou nas denominadas manifestações parafolclóricas.

 

No Folclore pernambucano, in Anais Pernambucanos, de Francisco Augusto Pereira da Costa, encontramos referências a ciganos nos chamados pastoris (pequenas representações dramáticas com dança e canto, realizadas diante de presépio entre o dia de Natal e de Reis, inspirados nos autos da Natividade e nos vilancicos portugueses), onde algumas ciganas fazem parte do auto, declamando poeticamente a sorte do menino Jesus. Transcreve-se integralmente porque é muito comovente:

1
Somos ciganas do Egito
Que viemos de Belém,
Adorar a um Deus menino
Nascido p’ra nosso bem...

2
Atenção peço, senhores,
Para esta breve leitura,
E uma atenção piedosa
A toda e qualquer criatura.

3
Deste menino formoso
Vindo de origem divina,
Em suas mãos pequeninas
Eu vou ler a sua sina.

4
Dai-me licença senhora,
Guiai o meu pensamento,
Para dizer o que sinto
Para ler com acento.

5
Eterno rei desses céus,
Que dando ao mundo alegria,
Por prodígios só nasceu
Da Santa Virgem Maria.

6
Redentor da humanidade
Nascido p’ra nosso guia,
Mudou o céu em presépio
Transformou a noite em dia.
7
Se a boa dita e a nossa,
Quereis meu bem, que vos diga,
É a mesma que bem sabeis,
Mas permitai que prossiga.

8
Dai-me soberano infante
Daí-me esta linda mãozinha,
E vereis que uma cigana
A vossa sina advinha.

9
Primeiramente a meus olhos
Vejo com suma alegria,
Que sois com um grande extremo
Querido de uma Maria.

10
E prevenida ela um dia
Pelo supremo juiz,
Fugirá cedo convosco
P’ra o mais remoto país.

11
E decorridos doze anos
De tão doce companhia
Terás milhares de penas
Sem lhe escapar um só dia.

12
Enquanto andardes no mundo
Sereis sempre perseguido,
Mas, pelos prodígios divinos
Jamais vós sereis vencido.
13
Se um amigo no rosto
Certo dia vos beijar,
Às mãos cruéis da justiça,
Ele vos há de entregar.

14
Outro vos há de negar,
Em perguntas à porfia,
Respondendo que não sabe
Quem sois vós, minha alegria.
 
15
Não tereis vida mui larga,
Pois, com as mãos estendidas
Atirarão numa cruz
Uns ingratos homicidas.
 
16
E depois de redimirdes
A humanidade querida
Vencereis a própria morte,
Lograreis a eterna vida.
 
17
Se porque digo a verdade
Mereço eu uma esmolinha,
Dai-me só a vossa graça
E a todos desta lapinha.

Na coleção de estudos brasileiros, série Marajoara, no 20, lemos no Baile do Meirinho trechos em Bailes pastoris na Bahia, coligidos por Mello Morais Filho, Manoel Quirino, J. N. de Almeida Prado e Carlos Ott, onde aparecem lindas ciganas declamando. Vejam estas quadras:

 

Surge uma cigana mercando: 


As chitas finas e boas,

cambraias, lenços também;

de mimo eu vou levando

para as portas de Belém.

 

Venderei algumas

a quem encontrar,

menos as mais finas

que são p’ra levar.

Um dos costumes dos ciganos é o de apresentar o recém-nascido à Lua para tê-la como madrinha do filho, atrair boa sorte, proteção e saúde. A criança é erguida acima da cabeça pela avó ou tia que recita:

 

Lua, Lua, luar, / Toma teu andar, / Leva esta criança ,/

E me ajuda a criar, / Depois de criar / Torna a me dar!

 

O texto supra é encontrado no Dicionário de folclore brasileiro de Luís Câmara Cascudo, p. 431. Ele nos informa que é herança de Portugal, mas temos indícios de que foram os ciganos que nos legaram este costume. Os que vieram de Portugal nô-lo trouxeram.

 

Alexandre José de Mello Morais Filho (citado) faz extensa e minuciosa descrição de uma festa de ciganos (bródio/abieu), no beco do Bem-bom, Rio de Janeiro, em seu livro Os ciganos no Brasil, pp. 38-41. Ele chama a dança de fandango. Apresenta-se esta dúvida: Foram, os ciganos, criadores desta dança ou somente a divulgaram?

Está bem provado no excelente livro de José Ramos Tinhorão[15]: Fado dança do Brasil cantar de Lisboa que houve simbiose entre o lundu e as umbigadas dos negros. Daí o fado junta não só o castanholado do fandango às umbigadas do lundu, mas também amplia o papel do canto, trocando estribilhos marcados por palavra pelo intermezzo (pequena peça musical intercalada noutras maiores) cantado...

 

Encontrei no livro 500 anos da música popular brasileira, editado pela FAPERJ, à página 34, poesia de Gregório de Matos Guerra que bem poderia ter visto ciganas bailando.

 

Não usam de castanhetas,
Porque cos dedos gentis
Fazem tal estropeada,
Que de ouvi-las me estrugi:
Que bem bailam as mulatas,
Que bem bailam o Paturi.

 

Lembro que pela cor acobreada, os ciganos poderiam facilmente confundir-se com mulatas. Informo ainda que é antiquíssimo costume cigano estraladejar os dedos, sendo que castanholas foram adotadas quando foram para a Espanha.

 

Registra-se a valiosa contribuição dos ciganos para o circo no Brasil, tendo alguém dito que não se pode escrever a história do circo sem falar nos ciganos. A história ensina que em 1727, Dom Antônio de Guadalupe, bispo do Rio de Janeiro, com jurisdição nas Minas, pediu providências contra ciganos que realizavam “com grande aparato, comédias e óperas imorais”.

 

Viajantes, cientistas, aventureiros, comerciantes e militares estrangeiros que vieram ao Brasil, indiciaram os ciganos como comissários de escravos. E o português, o brasileiro e outras etnias? Até que se compreende, afinal aqueles senhores/viajantes precisavam da cooperação dos mandatários locais, para alcançarem seus objetivos. Governadores-gerais e vice-reis foram grandes traficantes. O rei de Portugal, vendo que era bom negócio, avocou o privilégio do tráfico. Mas os viajantes não viram isto, culparam os ciganos. Imaginem os ricaços da época, cheios de empáfia e poderosos, eles jamais tolerariam a verdade. Se os portos do Brasil foram abertos às nações amigas em 1808, é lógico que os “tumbeiros” foram, em esmagadora maioria, de propriedade de português ou brasileiro, cristãos-novos[16] e/ou judeus. A corrente da escravidão é esta: Na África: ® pombeiros, tangosmanos / tangomaus ou lançados; ® No mar: os tumbeiros; ® No Brasil: comissários, comboieiros e tropeiros; e em todos os elos da corrente estavam os portugueses, brasileiros, cristãos-novos[17] e outros que não ciganos.

 

Um “artista” francês chegou ao Brasil em 1816 com a missão artística francesa e chamava-se Jean Baptiste Debret (1768-1848). Era um homem amargo, havia perdido o filho e separado da esposa. Ficou famoso por ter “retratado” o Brasil em 145 estampas e por circunstanciadas descrições. Com respeito aos ciganos, ele fez três desenhos (pranchas): Mercado de escravos no Valongo; Interior de uma casa cigana e Cigano indo para a roça. Errou em todas, não retratou: idealizou. Botou para fora toda amargura, preconceito e recalque contra os ciganos. Demonstrou ter mínimos conhecimentos sobre este povo. Foi, mais tarde, questionado ligeiramente por Bento da Silva Lisboa e J. D. Moncorvo de Ataíde, especialistas que analisaram suas aquarelas e concluíram que algumas eram verdadeiros deboches.

 

Felizmente, o excelente e erudito jornalista Haroldo Ceravolo Sereza, em 6/1/2002, no caderno 2,de O Estado de São Paulo, levantou a questão: Por que Debret não teve coragem de mostrar que brasileiros e portugueses dominavam o comércio de escravos? E respondeu: “Debret coloca em duas pranchas ciganos no comando do negócio de escravos, o que é um pequeno delírio histórico — ou porque Debret não viu o óbvio, ou seja, que a elite brasileira comandava o negócio, ou porque o óbvio não podia ser visto”.

 

Aquele que quiser se aprofundar no tema escravos/ciganos deverá ler meu manuscrito Brumas da história... onde desmentimos todos aqueles que difamaram/vilipendiaram os ciganos. Concluímos, sem sombra de dúvida, que a participação dos ciganos, no comércio escravista, foi mínima, quase zero.

 

Francisca Roiz, cigana, em 1603 alimentou a comitiva do governador-geral, Francisco de Souza. Ela fora contratada pela Câmara para isso e saiu-se muito bem. Também montou a primeira loja em São Paulo. Na petição, a cigana se comprometia a ganhar apenas 10%, o que foi motivo de elogio, porque na terra paulistana imperava a idéia de lucros exagerados a curto prazo[18].

 

Lemos em d’Oliveira China, apud Mello Morais Filho, que descendem de João Costa Ramos, os conhecidos Costas, notáveis cantadores e tocadores de viola, francos e generosos; o velho tronco Luiz Rabelo de Aragão perpetuou-se nos Rabelos, poetas e literatos, entrelaçou-se com a família Cabral, que nos tem dado oradores parlamentares, oficiais do exército, homens conceituados no magistério, no fórum e na tribuna sagrada (sacerdotes). A família dos Helena. Os Cantanhede, homens vencedores em vários ramos de atividade (engenheiros, médicos, professores, administradores).

 

Em 1944, em plena guerra mundial, os ciganos de São Paulo levaram ao governo brasileiro sua solidariedade em face da agressão dos nazistas, ofereceram-se como voluntários em defesa da pátria e também entregando donativos em dinheiro e jóias de ouro para auxiliar no custeio da defesa.

 

Como encerrar este trabalho? Dizendo que o Brasil não é a soma de portugueses, índios e negros. É muito mais! Existem milhares, quiçá milhões de outros indivíduos de outras etnias e entre elas sobressai a etnia cigana.        “O cruzamento das três raças efetuou-se, sendo o cigano a solda que uniu as três peças de fundição da mestiçagem atual do Brasil”. (Mello Morais Filho, Os ciganos no Brasil, p. 27).

 


 

[2] Michel Maffesoli, sociólogo, professor na Sorbonne, Paris. Autor, entre outras de Sobre o nomadismo: vagabundagem pós-modernas.

[3] In Elisa M. L. da Costa. O povo cigano entre Portugal e terras de além-mar (séc. XVI-XIX), p. 36.

[4] Foi membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), deputado federal, Secretário-Geral de jurisconsultos americanos, Diretor do Museu Histórico Nacional, escritor (128 livros).

[5] Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, historiador, dicionarista.

[6] Aglutinação de vale longo, originado em Portugal. Refere-se ao largo do Valongo, ou rua do Valongo, entreposto onde ficavam os negros para serem vendidos. Foi rua da Imperatriz, hoje, rua Camerino, cercanias do bairro da Saúde, Rio de Janeiro.

[7] Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora, 1955, p. 94-5.

[8] Poeta, folclorista, jornalista, memorialista, etnógrafo, historiador e médico.

[9] Bacharel em Direito, jornalista, escritor, crítico e pesquisador da música popular brasileira.

[10] Os outros redutos foram: morro de Santo Antônio, morro da Favela, morro de são Carlos e morro do Castelo.

[11] Revista de Cultura Vozes, ano 81 — volume LXXXI — setembro/outubro, 1987 — no5.

[12] Escritor, folclorista, historiador, tradutor e professor de Literatura Oral (Curso de Pós-graduação em Letras) da Universidade Federal de Goiás. Presidente da Comissão Nacional de Folclore (IBECC/UNESCO/RJ). Membro da Associação de Estudos ciganos (Paris). Presidente da Fundação Cultural Professor Mota, em Macaúbas, Bahia.

[13] PhD. em etnomusicologia, prof. da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ.

[14] O samba cigano: um estudo histórico-etnográfico das práticas de música e dança dos ciganos calom do Rio de Janeiro.

[15] Historiador e musicólogo.

[16] Indivíduos, especialmente judeus, convertidos à religião católica [....]. No período colonial, grande número de cristãos-novos veio de Portugal, fugindo da perseguição do Santo Ofício da Inquisição, que os acusava de hereges. No Brasil, tornaram-se senhores de engenho, proprietários de datas, compradores de diamantes e grandes comerciantes. Muitos adquiriram enormes fortunas com o comércio de escravos (Tráfico Negreiro), de açúcar e especiarias coloniais [....]. Dicionário histórico do Brasil Colônia e Império. Ângela Vianna Botelho e Liana Morais Reis. Autêntica Editora, 2002, p. 154.

[17] Em 1773, foi abolida a distinção entre cristãos-novos e velhos, pelo marquês de Pombal.

[18] In Belmont, No tempo dos bandeirantes. Melhoramentos, p. 98.

 
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