A CRUZ DOS CIGANOS
por Asséde Paiva
- 05/08/2014

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Vida de cigano é assim: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Os jornais deste país, desde priscas eras têm sido fonte copiosa da triste realidade dos ciganos: a desconfiança dos não ciganos. Resolvi dar uma olhada num desses periódicos, a fim de tentar compreender melhor a atuação dos nômades no território nacional. Não esperei surpresa e não a tive. Se for certo o que já sei ou que ouvi dizer, as notas sobre ciganos encontram-se geralmente nas páginas policiais. Também não me surpreendi com o teor, absolutamente; pois é recorrente a perseguição a esse povo, esteja onde estiver. É conhecida a frase: Se há um crime e um cigano está perto, prenda-o. Os dicionários apoiam quase incondicionalmente esta premissa: cigano é trapaceiro. Daí, excluindo as festas de que ciganos participam, com suas exóticas músicas, roupas e danças que, às vezes, são noticiadas, as outras informações são dolorosamente preconceituosas e nos fazem duvidar de que a maioria dos acusadores seja cristã ou que tenha Deus no coração, eis que invocam tanto o Seu nome.

 

Nasci e cresci entre incrédulos, irremediavelmente cético, pois. Advinhos, palmistas e cartomantes jamais levaram vantagem comigo. Li num livro que citava O Dia no 1.489, de 25 de junho de 1882, o seguinte:

 

“Em Niterói acaba de ser presa uma quadrilha de boêmios que se dedicavam à pilhagem por um processo deveras curioso e cheio de novidade. Homens, mulheres e crianças, sabendo todos manejar habilmente vários narcóticos, utilizavam-se deles para adormecer as pessoas a quem queriam roubar. [...] É enorme o número de crimes praticados pela quadrilha que, além de ciganos, tem também indivíduos gregos, turcos etc. Esta associação, porque o é, tem ramificações em todos os Estados do Brasil, obedecendo a um chefe que recebe 40$000 por mês. O produto dos roubos é reunido em um cofre e distribuído 20% pela quadrilha e o resto para os chefes. Os ciganos empregam-se durante o dia em vários misteres ambulantes, consertando louças etc., as mulheres fazem sortilégios, lêem cartas e mãos. Assim, conseguem insinuar-se no espírito das pessoas e se aproveitam de seu mister para roubar. Além dos objetos de valor e dinheiro, roubam também crianças e adultos, se isso lhes apraz. A polícia prendeu dez homens, dez mulheres e dezessete crianças de ambos os sexos: foram todos fotografados e os retratos expostos no salão do País (jornal), onde muita gente tem ido vê-los. A polícia apreendeu muitos valores, pedrarias, miçangas, adornos de mulher etc.”

A Biblioteca Nacional está perto, à rua do Passeio[1]. Fui consultar velhos diários para melhor me posicionar em relação a essas figuras estranhas, os ciganos. Procurei, na seção de hemeroteca, outros exemplares daqueles tempos. Por fim, encontrei toda coleção de O Dia, de 1824 em diante. Fiquei ciente de que os ciganos sempre estiveram presentes em festas e fastos ocorridos anteriormente às datas dos jornais. E que foram bem-vindos na corte nos idos de 1808-1818 e que eram frequentemente confundidos com outros estrangeiros chamados gringos. E, como esperado, em outras situações, sempre olhados com muito desprezo. Nos exemplares subsequentes, li que o grupo de ciganos presos em Niterói havia sido expulso para Portugal, porque de lá viera anos antes. Desconfiei da nota, pois soava falsa. Soube, lendo os números posteriores, versão amenizada do caso, isto é, o ponto de vista dos ciganos. A verdade, segundo eles, é que não puseram narcótico algum nas bebidas dos gajões (nome que nos dão), mas que usaram apenasmente o poder magnético de seus olhos, boa conversa e muita sensibilidade. Ademais, os negócios foram perfeitos e honestos. Aqueles que os acusavam de roubo tentavam enganá-los primeiro. Cessei a investigação dos periódicos e decidi procurar ciganos autênticos e morar com eles, se possível, porque queria ver in loco o modo de vida desse povo, com os olhos que comer a terra há de. Devo esclarecer que minha pesquisa focalizava quase sessenta anos após o fato e, pelo que sei tudo continua como dantes, ou seja: a intolerância eterna.

 

Deixei o Rio de Janeiro e viajei para Minas onde, segundo soube, se concentrava grande população cigana. Fui e vi o que passo a contar talqualmente aconteceu. Se não sou cigano de sangue, o sou de alma. Gosto de aventuras e gosto de viajar. Primeiro passei dias em Juiz de Fora, consultando pessoas amigas, parentes e jornais, para saber onde encontrar ciganos. Disseram-me que um grupo estava acampado nas proximidades de Taboões. (Hoje Ewbank da Câmara). Para lá fui. Encontrei Vemaliel e seu grupo. Vemaliel era o barô (chefe). Travei com ele um diálogo difícil, pois estava muito arredio. Foi assim que se deu e registro em mal traçadas linhas:

 

“O senhor é o rei dos ciganos?” Iniciei mal a conversa. E ele incisivo:
“Cigano não tem rei não, sou um dos mais velhos e por isso respeitado.”
“Gostaria de lhe falar sobre ...”
“Sobre o quê?” me interrompeu e acrescentou: “Não fizemos nada errado...”
“Calma, senhor, eu só quero conversar”.
“Então, se não é acusação, de que se trata? Quer fazer uma baldroca?” (é como eles chamam negócio de trocar animais e bugigangas).
“Não, senhor, eu queria viajar com vocês!”
Balançou a cabeça. “Viajar... vocês gostam mesmo é de ficar em casa!”
E eu argumentei: “Eu sou diferente, também não acredito nos que falam mal de vocês!” “Falam o quê? Sempre falam contra a gente, você deve ser um espião, gajões detestam ciganos!” Olhou-me desconfiado, com aqueles olhos imensos, intensos, fosforescentes, que atravessam e perscrutam nossa alma. (A experiência me ensinou: se você pretende superar um cigano, não fixe nos seus olhos; se o fizer, vai perder). Ele pareceu serenar. Talvez tenha sentido minha sinceridade. Aproveitei o momento:
“Pode crer em mim, senhor! gosto de vocês, do seu jeito de vida...”

 

Difícil convencê-lo de minha honestidade de propósito. Seu olhar de viés me avaliava, mas eu também o avaliava. Não parecia muito velho, e era moreno acobreado, músculos evidentes sob a calça justa, de brim; os cabelos, que sobravam sob o chapéu de abas caídas, eram pretos, entremeados com alguns fios brancos; um brinco adornava-lhe a orelha. Um cordão de ouropel, com grossos elos descia ao peito, e seus dentes, todos eles, folheados a ouro. O nariz era pontiagudo; em suma: um homem forte, com traços de beleza e muito sofrido. A camisa xadrez desbotada, algo suja. As botinas de couro cru, rotas, mostravam as léguas caminhadas. Fomos alternando momentos de silêncio e conversa. Lado a lado saímos do arraial, em direção ao acampamento. Notei que ele coxeava ligeiramente. “Não é de nascença”, me disse ao ver que notara o fato. “Foi um coice de mula no joelho”.

 

Tirou uma quicé da cintura e, enquanto alisava uma palha de milho para fazer um cigarro, adiantou: “Tá bem, vou lhe apresentar minha família (i.é, à comunidade), eles decidirão o que fazer”. Enrolou o cigarro de palha parecendo um funil, ofereceu-me fumo e palha para fazer o meu pito. Aceitei para me tornar mais íntimo. Daí saboreando nossos cigarros, emudecidos, chegamos ao acampamento. Eram várias tendas que ficavam a três quilômetros do arraial.

 

“Aqui”, disse-me ele, “chamamos Cachoeirinha. Fica perto do cemitério e isto espanta os intrusos; está perto do córrego, onde lavamos nossas tralhas e tomamos banho. É bom, também, porque fica entre dois lugares. Se o delegado de Taboões me mandar sair em três dias, digo que estou em Chapéu D’uvas. Se o delegado de lá me dá outros três dias, já tenho seis. Como sempre ignoro estes prazos, acabo tendo doze, quinze ou mais dias. Depende da tolerância dos moradores. Também costumo pagar uma propina: Qual couro que não aceita unto? Fico dois ou três meses e depois vou embora, porque sou viajante, meu povo não esquenta lugar. Burro ensinado sente toque na cangalha. Sei quando devo ir e não bato prego sem estopa”.

 

Chegamos. Era um colorido geral: mulheres de saias esvoaçantes, multicores, rodadas, compridas até os pés; blusas brancas, decotes amplos, tranças, miçangas. Crianças peladas, homens de zuarte e chapéus de abas largas. Mulheres gritavam, crianças também. Sob uma tenda, um jovem cigano, musculoso, de cabelos longos, encaracolados, pretos, trabalhava o que parecia um tacho, modelando-o numa bigorna. Do lado de fora, o fole e o braseiro. Uma mulher estendia roupas no varal; um cigano, velho, raspava um cavalo magro, matungo. Mais distante, lá perto do córrego, algumas velhas enxaguavam roupas na pedra lisa. Dentro de uma tenda saiam acordes, doces, plangentes de um violino. Enfim, uma polifonia, uma zorra. Cavalos pastavam na ravina e cachorros latiam em volta do acampamento. Todos pararam o que estavam fazendo para nos examinar. O cigano falou algumas palavras, ininteligíveis para mim, em tom autoritário e nos envolveram num círculo perfeito. Cheguei a temer pela minha integridade física. Parece-me que discutiam acaloradamente minha solicitação. Uns balançavam a cabeça negativamente, outros coçavam a barba ou o queixo, pensativos. Por fim, alguns se afastaram e foram buscar um homem velhíssimo, que repousava sobre almofadas numa tenda mais ampla. Ele parecia ultrapassar os cem anos. Veio até nós meio andando, meio carregado. As mulheres foram definitivamente afastadas da reunião, depois soube que era uma espécie de tribunal chamado kris. Vemaliel expôs o problema. Mais uma vez todos falavam e gesticulavam ao mesmo tempo, na algaravia incompreensível. Então, fez-se silêncio e o ancião falou pausadamente por alguns minutos e as frontes foram desanuviando aos poucos. Quando tudo parecia esclarecido, chamaram a phury daj (a matriarca da tribo, a última palavra é dela). Ela parecia ser tão velha quanto o ancião, disse apenas uma palavra e afastou-se. Então, Vemaliel mais conciliador: “Você foi aceito, pode ficar com nosso povo por uns tempos. Se adaptar aos nossos costumes poderá ficar; se cometer qualquer falta, nós o puniremos com todas as forças e, se nos trair, será morto”. Mostrou-me um pé de galo, ressecado, com uma enorme espora. “Você será rasgado com estas garras.” Deu-me roupa velha, tive que despir as minhas e trocá-las. Não pude sequer ficar com meus documentos e dinheiro. Tudo me foi confiscado. Aproximou-se de mim outra mulher idosa, me perguntando se queria ler a buena-dicha, foi rispidamente afastada pelo capitão. À tarde, me mandaram apanhar lenha para fazer uma fogueira. Tive a sorte e, porque não dizer, enorme prazer em ser acompanhado pela mais bela mulher que já vi em minha vida. Cabelos pretíssimos cindados sobre os ombros, emoldurados por bela rosa vermelha, sobre a orelha, com enormes brincos de ouro ou pechisbeque, nem tudo que reluz é ouro. Seus olhos, duas jabuticabas presas em bolas de marfim, giravam vivazes, alegres, nas órbitas, impressionantemente belos, emitiam relâmpagos e passavam da claridade à opacidade, como que lendo meus pensamentos. Transmitiam mistérios que me propus a desvendar. Seus dentes regulares, íntegros, enfeitavam-lhe a boca; seus lábios proporcionais, vez por outra abriam em sorrisos argentinos. Era quase menina, de porte esbelto e vivo. Suas saias coloridas roçavam ao chão e seus pés raramente apareciam. Era de uma leveza sem par, imitava o voo rasante de uma garrincha. Meu coração batia descompassado. Será que eu estava amando a cigana? “Ora essa, que importância tem isto? Eu me tornaria cigano, se preciso fosse”. Naquela noite pude apreciar como é bela a dança cigana; como palpitou meu coração ao ver minha bela rodopiar em torno da fogueira. Rilhei os dentes com ciúmes, ao sentir que o tocador de violino lançava-lhe ternos pingos de amor. O nome dela era Angelina ou Lina. Procurava-me com os olhos, torcendo a cabeça nos rodopios. “Sou correspondido”, pensei.

 

Iniciei-me assim, na comunidade dos nômades, onde a alegria imperava com total liberdade. Com eles viajei por meses sem fim. Amanhecíamos num lugar, recebíamos visita do delegado que, em regra, nos dava três dias para partir, enquanto o tempo passava e não obedecíamos ao mandato, as mulheres liam a sina e os homens barganhavam cavalos, consertavam tachos, faziam cestos de vime, teciam balaios de taquara. Levávamos a vida livre e simples, às vezes anoitecíamos, mas não amanhecíamos no mesmo lugar. E em cada povoado eu dava um espetáculo mamulengo e me saía muito bem: tinha o dom de imitar vozes masculinas, femininas, de crianças e era muito bom ventríloquo. A plateia exultava e quase morria de rir quando a velhota, conduzida pelos meus dedos ágeis, dava uma sova no marido, com o cabo da sombrinha. O pináculo da festa era a dança dos pombos. “Como ela era?” Nosso chefe, Vemaliel, entrava solene na ribalta e estendia um tapete bem largo. Sobre ele espalhava ovos aqui e ali, ao acaso, e um no centro. Depois, atendendo ordens e um aceno de mão do chefe entrava saltitante, esvoaçante, coleante minha querida Lina. E depois das apresentações, ela dançava, requebrava, contorcia-se, agitava o pandeiro enfitado, girando-o e tocando-o nos cotovelos, passando seus pés leves, como plumas, sobre os ovos sem quebrá-los, numa proeza digna de palmas. Finalmente, com levíssimo toque dos dedos do pé, levantava cada ovo no ar, apanhava-o na mão esquerda, depositando-o no pandeiro, agora virado com o couro para baixo. De repente, num gesto inesperado, fingia jogar os ovos na plateia, saíam pombos brancos, voando graciosamente. Pais, mães, filhos, todo o público aplaudia freneticamente. Moedas de $40, $50, $100 e até de $200 réis eram jogadas no tablado, como justo prêmio ao nosso espetáculo.

 

A roda da vida girando, girando, nos trouxe de volta a Taboões. Assisti a uma leitura da sorte, que também marcou minha vida. Acampamos no lugar de sempre, na Cachoeirinha. Quando amanheceu, fomos para as ruas que eram poucas, sendo que as duas principais formavam um Tê. Resolvemos aproximar de uma casa onde um indivíduo mal-encarado estava nos observando da janela, com os cotovelos firmes, apoiados no peitoril. Parecia ser apenas um visitante, mas, debaixo deste angu tem carne. A nosso pedido, chamou a dona da casa. Éramos três: a matriarca, ou phury daj, sua neta e eu. Pedimos água, que nos foi fornecida prontamente. A dona nos convidou a entrar. Agradável surpresa, porém, tal convite não agradou ao homem da janela (um policial e não sabíamos). No interior da casa, na sala de estar, nos ofereceram café e bolo. Aceitamos. Aliás, o bolo estava muito gostoso. Em paga pela boa acolhida, Lina minha namorada (penso que não deixariam que eu me casasse com ela), prontificou-se a ler a sorte da dona da casa que, por ser muito tímida, recusou. O policial ironicamente sugeriu que se lesse a mão de outra mulher, sentada com uma criança no colo. A phury daj fez questão de ler, afinal era mais sábia. (Em geral só as mais velhas lêem a buena-dicha; as mais novas são aprendizes). Ela pegou a mão da mulher indicada, deu ligeira olhada, em seguida, solicitou que as crianças fossem retiradas da sala, ficando apenas os mais velhos. Fechou os olhos, reabriu-os, semicerrou-os, para não demonstrar o intenso fulgor, a luminosidade da íris, contrastando com a película branca da esclerótica. Agora, estavam embaçados, mortiços, ela deu um suspiro profundo como em êxtase e começou a falar: “A senhora sofre muito, seu marido é muito ruim, vocês têm cinco filhos e ainda vão ter mais um. Sua vida sofrerá um corte doloroso, vai ter enfim uma compensação e encontrará alguém que lhe dará apoio. Você viverá muitos anos. Minha filha, espere por muitas dores...”

 

O policial observava tudo com sorriso de mofa nos lábios entreabertos. Aí, nossa matriarca largou a mão da boa senhora e pediu a do homem, que cedeu com alguma relutância.

 

“Como se chama o senhor?” “Velha, você não adivinha? Não sabe meu nome?” Disse desdenhosamente. “Não sei não, senhor, mas outras coisas... eu vejo... tenho visões, conheço-o por dentro e por fora”. Diz ele: “Meu nome, feiticeira, é Serafim...” pausa prolongada, “Serafim Boa-Morte, subdelegado de Descoberto, às suas ordens...” Nossa phury daj ficou novamente com os olhos estranhamente fixos, duas estrelas brilhantes. A seguir suspirou profundo: “Você... você é o marido dela (note-se que ninguém sabia disto). É mau, judia dos outros, tenho a dizer... preciso dizer...” Interrompeu e largou a mão dele, que ficou bastante chateado, irritado mesmo e exigiu: “Continue, continue, quero saber tudo, velha!” Ela retomou-lhe a destra e...: “Você sofrerá um acidente em dois anos, depois morrerá de morte violenta”.

 

Três palmadas rápidas, e a ciganada chispou, tal qual lagartixas assustadas. Cigano em geral, não prediz o que é ruim. Quem não pode com a mandinga, não carrega patuá! Aquilo não fora bom agouro para nós. À noite, sob chuva fina, continuada, fria, um dos nossos apareceu afobado, ofegante, no acampamento. “Chorrê, chorrê...” (policiais), “diquela, diquela!” (alerta! alerta!). Imediatamente desmontamos as tendas, mas o arraial era próximo, escutamos a gritaria: Ladrões! ciganos! matem! prendam! Corremos para o bosque, não adiantou, a perseguição feroz nos alcançou, mas atravessamos o rio Cachoeirinha, corremos, corremos, loucamente, deixando para trás nossos pertences, valores, roupas no varal, bestas de carga etc. Salvamos alguns cavalos, montamos e partimos, em louca disparada, em qualquer direção. Quando pudemos reunir e contar o pessoal, vimos que muitos faltaram, talvez feridos ou presos. Nada podíamos fazer por eles.

 

Amanhecia ao aproximarmos do povoado de Creosotagem, mortos de fome e cansaço. Apeamos perto de um pobre bar. O dono ainda abria as portas, Vemaliel disse a ele: “Senhor, estamos com muita fome, pode nos dar pelo menos um gole de café? Nada temos, fique com um dos nossos grais (cavalos)”.

 

O dono da venda nos deu uma geral, de alto a baixo. Nosso miserável estado era evidente, ele penalizou-se, teve misericórdia e mandou-nos entrar. Sentamos em toscas cadeiras e nas soleiras das portas, enquanto ele fazia café. Nem sei se foi por nossa fome, o aroma era, por si só, estonteante, delicioso. O dono, então, distribuiu uma xícara de café e um pedaço de pão para cada um de nós. Ainda fez um embrulho de roscas e nos deu. Comemos e bebemos; o que nos trouxe algum ânimo. Íamos partir, nossa matriarca pediu para ler a sorte do bom vendeiro. Ele disse que não acreditava em leitura de sina, mas na proteção da santa de sua devoção, cuja medalha trazia presa num alfinete, no bolso da camisa. Abriu o alfinete e mostrou para nós. “Eu sei”, disse a matriarca, “sua proteção é grande porque é caridoso, por favor, deixe-me olhar sua mão, é como posso pagar”. O vendeiro acedeu. Ela examinou os traços da mão; a linha da vida, do amor e do coração, encarou-o com muita tristeza e assim falou: “O senhor é um lutador, trabalhou muito, sustentou pai e mãe, criou seus irmãos, merece um descanso e terá, mas antes vai passar um grande perigo de vida e será salvo. Oh! sois muito mulherengo, muito! Cuidado com seus amigos! Ah! você viverá até os setenta e oito anos; cria juízo, homem!” Nada mais disse, nem lhe foi perguntado.

 

Partimos para o Sertão do Leste de Minas. Conseguimos chegar a um lugar chamado Rio Novo, onde havia mineração de ouro e muito descaminho. Lá nos reunimos a outro grupo de ciganos, formamos uma nova vitsa (família). E, através da leitura de sorte, da berganha de cavalos, negociação com os mineiros, magia e esperteza (ganjão[2] quando leva milho, cigano já vem com fubá), conseguimos muito ouro. Porém, vida de cigano é perigosa. Uma noite, Vemaliel e um companheiro escutaram som continuado de sanfona de oito baixos, vindo de uma choça. Aproximaram-se curiosos e puderam ouvir uma onomatopeia que poderia ser traduzido assim:

 

Quem é o galo da matinha?/ É o João Nicolau.

Quem é o galo da matinha? É o João Nicolau!

 

Lamparinas com luz mortiça saracoteando nos portais e paredes, mostravam que todos dançavam nus. João Nicolau comandava o baile surreal: “Façam roda! Dedo no cu; trocar de dedo!” Um dos dançarinos reclamou: “Tá danado!” O valentão retrucou: “Danado de quê?” E o outro medroso: “Danado de bom!” E o sanfoneiro puxava o fole da oito-baixos, apertando as chaves entre os dedos, assim tocava: Caga aqui, caga no canto, caga aqui, caga no canto... Cai fora que te mando a foice. Espantados, boquiabertos, os ciganos iam saindo de mansinho, quando foram abordados pelo homem que os intimou a tirar as roupas e cair na folia. Não aceitaram, pela natural reserva que têm dos não ciganos. Mas convite de João Nicolau (era o próprio) não se desdenha, é uma ordem. As lâminas brilharam ao lusco-fusco das lamparinas. Rápida e selvagem foi à luta; os ciganos feridos sem gravidade, João Nicolau candidatou-se a comer capim pela raiz. Boa bisca era João Nicolau, quando padre Antônio, vigário colado[3] de Descoberto, viu o corpo do homem estendido, disse à guisa de oração fúnebre: “Quem quiser mandar um recado para satanás, destino inferno, basta pôr o bilhete no bolso deste patife. Ele tinha o corpo fechado, né! Pois vai ser fechado no caixão” Cigano não dá ponto sem nó, nosso capitão nos mandou levantar acampamento, porém, o subdelegado de polícia de Descoberto, que mais do que fazer justiça tinha raiva de nós e cobiçava nosso ouro, nos aprontou uma emboscada nas cabeceiras do rio Pomba. Sensível como quê, Lina sentiu o drama, puxou-me pela mão e fugimos pela mata cheia de espinhos ora-pro-nobis, brejaúba e unhas-de-gato, daquela armadilha. “Seu” delegado, atrás de um cupinzeiro, não perdia uma bala. Todos ou quase todos foram mortos, homens, mulheres, jovens, idosos, crianças, pois à noite todos os gatos são pardos. Nem o cão escapou de levar um tiro entre olhos. Mais tarde, para marcar o lugar, uma cruz de madeira foi fincada e passou a se chamar cruz dos ciganos. Diziam ser um local assombrado. Yo no creo pero... viandantes que por lá passaram viram um cachorro pretíssimo, olhos de fogo, bolhas de sangue na testa, uivando à luz da lua. A chacina foi lembrada pelos pósteros como o massacre de São Manoel do Pomba. Um jornal da época publicou:

 

“Há algum tempo, ciganos com disfarce de mascates, mágicos e negociantes de bestas, vêm importunando mineradores e garimpeiros. Esses verminosos compram, vendem, trocam tachos, cestos, bugigangas diversas; sempre levam vantagem, por esperteza ou trapaças. As reclamações são muitas. Tudo vem sendo tolerado pela nossa pacífica população. O subdelegado Serafim Boa-Morte recebeu denúncia muito séria sobre a morte de João Nicolau. Reuniu trinta praças, outros tantos civis, marchou contra os ciganos, que foram surpreendidos quando fugiam no meio da noite. Numa fuzilaria que durou vinte minutos, algumas mulheres e crianças também morreram, o que é de se lamentar, o lado positivo foi ficarmos livres desses bandos facinorosos. O Serafim confiscou todos os bens dos ciganos; vinte cavalos, três mulas, dez canastras de roupas, uns tantos tachos, moedas, notas de grande valor, ouro e algumas pedras preciosas. Quem diria que esses patifes tinham tudo isso? Conforme praxe, foram distribuídos para os combatentes 50% das mercadorias apreendidas. O subdelegado requisitou, para o governo, a metade. Pois, segundo o ditado, quem parte e reparte, não fica com a melhor parte, é bobo ou não tem arte”.

 

  

Eu e Lina, afora pequenos arranhões, escapamos ilesos daquela tragédia. Minha bela tinha aguçado sentido de orientação, não é à toa que vieram da Índia, atravessaram o deserto de Thar, os Alpes, os Apeninos e os Andes... E os Pireneus, também. Os contrafortes da serra da Mantiqueira não seriam obstáculos pra ela e não foram. Cigana não se perde nunca, não se desorienta. Fugimos com pequena sacola de ouro em pó que vendi, para apurar algum dinheiro, ao primeiro interessado. Voltei com Lina para o Rio de Janeiro, recompus minha vida. Casei com minha amada numa bela cerimônia cigana[4] no Catumbi, com direito ao rapto encenado da noiva, pelo noivo; à quebra da moringa, ao darro[5], para os presentes; o pão e o sal, e outros rituais próprios do povo cigano. Ficaram indeléveis, em minha memória, as inesquecíveis noites ao luar, em plena liberdade e felicidade. Com os nômades fiz malabarismos no circo mambembe, aprendi negociar, amar e respeitar a natureza; ouvi músicas maravilhosas e plangentes, tiradas do violino. Também sofri nas correrias e fugas, com policiais e civis em nosso encalço.

 

Se houvSe houve remanescente do clã de Vemaliel, daquela carnificina, não sei. Não ouvi falar mais deles, ninguém sabia o que realmente acontecera. Os ciganos fugiram? Morreram? Dispersaram-se? Dele sim, eu soube que fora preso, evadira da cadeia e se aliara a Mão de Luva, célebre bandoleiro, contudo, é controverso, porque cigano não se submete a gadjé (não cigano).

 

Dois anos depois retornei àqueles lugares. Revisitei a casa onde fora feita a leitura da sorte da mulher do policial. Encontrei a dona da casa. Conversa vai, conversa vem, ela me contou a curiosa estória de uns ciganos que passaram por lá e tudo que predisseram... aconteceu. O policial sofrera um terrível acidente, caíra de um carro de bois numa perambeira e saíra muito ferido.

 

CuriosoCurioso, refiz o caminho de Creosotagem, ao mesmo bar onde estivera outrora, com minha gente e muita fome. O antigo dono do bar não estava. Procurei saber o que se dera. O novo proprietário me disse que seu antecessor sofrera um atentado. Seu melhor amigo com ele se desentendera (assunto de mulher), esperou-o abrir o bar, tomou uma cachaça, forçou uma discussão sem sentido e lhe deu cinco tiros de quarenta e cinco, à queima-roupa. Quatro balas transfixaram seu corpo; a que lhe traspassaria o coração fora desviada pela medalha, a medalha de Nossa Senhora...

 

E eu que não acreditava em divinação... mas eles também não, assim dizem fazendo troça:

 

     Eu o vi onde você nunca esteve,

         E onde nunca estará.

              E ainda naquele mesmo lugar

                 Você pode ser visto por mim

                      Pois dizer o que desconhecem

                          É a arte dos romanis.

 

Quem com ferro fere...

 

Serafim Boa-Morte estava muito feliz. Do alpendre de sua fazenda observava os bois e vacas, estas com os mojos cheios, todas no curral, prontas para a ordenha. Os bezerros berravam querendo mamar. Ele visualizou as pastagens, canaviais, matas e cafezais, tudo verdinho. Lá longe, bem na encosta, descia a cachoeira com aquele ruído consistente: xuaaaaa. Virou-se para o lado da mangueira, cheia de porcos gordos, porque o olho do dono engorda o capado; longe, no açude, as narcejas cantavam apelativas: atch, o, o, o, água só. ó-rapaz... No terreiro, as galinhas, patos, marrecos, perus, rolas, tico-ticos, canários e pássaros diversos disputavam milho, canjica e farelo. Tudo era belo, ele tão feliz, tartamudeou uma canção ligeiramente pornográfica:

 

     Cigana de sete saias,

          sete saias de cetim.

               Debaixo das sete saias

                    tem coisa boa pra mim.

 

Ele havia violado algumas ciganas. Lembrou-se disso, com satisfação e volúpia, era partidário do ‘recordar é viver’. Aí viu uma figura que vinha distante, pela vereda. Era um velho curvado e mancava um pouco. Serafim franziu o cenho, um momento fugaz de inquietação e medo aflorou. Premonição?... Pôs-se a cismar. “Quem seria o homem?” Logo, o pensamento voltou-se para as coisas boas, para seu grande progresso na vida. Tinha setenta alqueires de terra. A casa da sede da fazenda era espaçosa. Sorriu. Lembrou-se de como conseguira sua fortuna. Tudo derivava de seu cargo de subdelegado. A região continha algum ouro e ele, ao invés de lavra, preferira controlar e manter a ordem entre os garimpeiros. Recebia uma comissão por isso. Mantinha em rédea curta os vagabundos, vadios e prostitutas. A fama chegara ao auge quando exterminara os ciganos que infestavam a região. Sua cara tornou-se mais alegre ao lembrar que extirpara mais de quarenta nômades, passando-os pelas armas. Ah, ele ficara com a metade dos bens dos ciganos, pois se esquecera de entregá-los ao seu superior, na cidade. Quem poderia culpá-lo? O mundo é dos espertos. Agora, o indivíduo que antevira estava na porteira do curral, usava chapelão de abas caídas, tinha barba revolta que lhe escondia a face, parecia um pobre coitado, um vilão igual a muitos que perambulam por este mundo afora. Quando o homenzinho chegou perto, muito perto da varanda, Serafim estava bem disposto, com tão bom humor e de bem com a vida, que o convidou (após cumprimentos de praxe) para um café. O viandante aceitou. Sentaram-se em um degrau da escadaria de pedra, que dava acesso ao alpendre. Serafim perguntou, por dever de ofício, quem era o recém-chegado? de onde vinha? aonde ia? E as respostas foram aceitáveis. Depois de algum tempo, o homem pigarreou, se levantou para partir. Serafim o imitou. O mendigo então se coçou e segurou algo sob a camisa. "Delegado, vim de longe para conhecê-lo melhor, saber que o senhor é o senhor mesmo, da sua fama, ouvir seus feitos. Não podia errar, queria ter certeza, sou sincero, tenho outro nome... veja esta faquinha, está sem bainha... quer arranjar uma bainha para ela?"

 

Abraçou o homem, enterrou, puxou e tornou a enterrar a faca, até o cabo, na barriga adiposa do subdelegado. Ele derreou ali mesmo, sem ai! nem oh! Os olhos arregalados, vidrados, antes de se apagarem, perguntavam por quê? Ainda ouviu, longínquo: Vemaliel.

 

 

FINIS

  

[1] Antigo endereço da Biblioteca Nacional, à época em que se deu este fato.

[2] Ou gajão, gadjê, gadjô, payo, górgio = não cigano.

[3] Eram os vigários designados pelo rei, recebiam uma remuneração denominada côngrua.

[4] O vinho é usado para que nunca falte alegria e felicidade para o casal. O pão e o sal simbolizam união. Os presentes recitam:
"Quando o pão e o sal perderem o sabor, vocês não terão mais amor um pelo outro.” A moringa de barro, quebrada em muitos pedaços,
indica os anos que vai durar o casamento. O punhal é para picar ligeiramente o pulso dos noivos, que serão amarrados com um lenço
vermelho, dando-se três nós, significando cada um: felicidade, fertilidade e vida longa. O punhal e o lenço serão religiosamente
guardados pelos noivos, para que se lembrem da sua união.

[5] Às vezes o darro é apenas uma urna de pão. Depois de retirado todo o seu miolo, geralmente 21 homens postos ao redor de uma
mesa depositam nela seu dinheiro, dizendo: “Menos para mim, mais para eles”.

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