Matéria Especial Benficanet
 
PROSOPOPEIA DESVAIRADA - 13/01/2017

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_ Os senhores não poderiam estar construindo aqui! Vociferou o Gerúndio. ––Saiam imediatamente, pois vamos derrubar esta casa! Isto é área de preservação ambiental. Respeitem a ecologia!

À frente de todos estava o Imperativo Negativo, que pôs o dedo no nariz do casal Mais-que-Perfeito Composto, proprietários da casa, aliás, pobre casa.

_ Saiam que “vou estar derrubando”, já!

_ Por favor, foi tão difícil construir esta casa, misericórdia! Vou ficar sem teto...

_ Derrubo, sim. Tenho aqui a ordem de demolição assinada pelo juiz, partícipe no passado de muitas sentenças de despejo. Senhores agentes da Terceira Pessoa do plural, podem começar a remover os móveis e os pertences, que a equipe de empreiteiros, bem azeitada vai estar demolindo.

Enquanto o casal Mais-que-Perfeito, em prantos, implorava, apareceu uma figura sorridentemente engravatada, melíflua:

_ Boa-tarde, casal Mais-que-perfeito! Não chorem, seus problemas acabaram. Permitam-me apresentar-me: sou o Futuro do Pretérito, outrora Condicional, corretor de imóveis e já analisei o caso de vocês, aliás, peculiar, pobres trabalhadores de salário-mínimo, honestos, porém. Com o contracheque de vocês dois combinados, podem adquirir uma belíssima quitinete, onde Judas perdeu as botas, ou logo ali, segundo légua de mineiro, onde não tem água, nem esgoto; mas a vizinhança é legal, só uns tiros, vez por outra; uma bala perdida, aqui e acolá. Fica no buraco da onça, em alagados.

_ Obrigado pela ajuda, respondeu o senhor Mais-que-Perfeito. Quanto vai nos custar esse tugúrio?

_ Não se preocupem com o pagamento. Nada além de 500 prestações no valor de metade dos seus dois contracheques somados. No futuro, caso vivam até lá, “vão estar recebendo” a quitação, com o saldo devedor...

_ Como é que é? 500 prestações... assustou-se a cara metade, ou esposa do casal Mais-que-Perfeito.

_ Isso mesmo. Vocês ainda podem vender um rim cada um, né? As córneas, pelo que eu vejo, parecem boas... Aceitamos órgãos em bom estado, de entrada e na entrega das chaves. Proponho um acordo: cada cônjuge vende o rim e um olho e dá para se virarem. O Infinitivo Pessoal, o proprietário do terreno e do imóvel, tem clientes para seus órgãos.

_ Isso vai contra nossos princípios –– diz o Imperativo Afirmativo categórico que a tudo assistia e resolvera intervir.

O Imperativo está indignado com a proposta indecente do corretor, Futuro do Pretérito.

_ Pessoal, diz o Infinitivo que também resolveu participar do imbróglio. No pretérito, tudo era perfeito, agora, no presente, com os sem-terra e sem-teto trazendo imensas reivindicações, nossas autoridades atentas estão prontas para aplicar correção em tempos e modos.

Ai dos partícipes em arruaças!

O governo ficava em cima do muro, ansioso pelos votos dos lumpemproletários e leniente, o que configura a situação esdrúxula de agir ou não agir, aplicar ou denegar a lei. Um dilema maior do que o de Hamlet, na tragédia de Shakespeare. Que situação ridícula: o chefe da Nação põe o chapéu, agita bandeiras dos sem-terra, e os sem-terra aproveitam para passar o trator em plantações rentáveis dos cutrale. E ainda há os sem-vergonha.

_ Afinal, quem são os cutrale? Para quê aquelas lindas laranjeiras? Passemos o trator por cima delas... –– vocifera Verbo ad verbum.

Para que o país não se transforme em casa de mãe-joana, o (des)governo diz que vai apurar tudo, doa a quem doer.

No futuro, transforma-se em pizza.

_ Mas, assim fugimos do fulcro da questão, da sua essência: o que fazer para ajudar a família Mais-que -Perfeita? Eu não sei, que tal começar por conceder bolsa -família, seguida por um auxílio-desemprego. –– Opina o Subjuntivo que tudo ouvia.

_ Não quero essa ajuda, recusa o Mais-que-Perfeito, tenho brio, prefiro cometer um delito, ser preso e receber o auxílio-presidiário, que vale três vezes o salário-mínimo. Nada pessoal senhor Gerúndio; Mais-que- Perfeito puxou o revólver e deu-lhe cinco tiros, mandando-o para o infinito, resolvendo a pendência.

_ Teje preso! –– É o Imperativo Presente que a tudo assistia.

_ Nada disso, tenho direitos constitucionais, vou apelar para uma ONG, pedirei asilo aos sem-terra, a turma dos direito humanos me apoiará, sou sindicalizado. Um advogado impetrará habeas corpus.

Confusão geral. A turma de Subjuntivos fez roda protetora em torno do casal Mais-que-Perfeito; os agitadores do Presente, e do Pretérito se disseram black blocks e começaram a atirar pedras nas autoridades. A polícia jogou spray de pimenta, bancos foram depredados e assaltados a título de direito de manifestação. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não sabia de nada sobre o ocorrido, mas se pronunciou contra. Estamos na democracia, pela ordem...

Vem o Presente pedindo calma. O Mais-que-Perfeito guarda a arma. O Imperativo diz que haverá julgamento no futuro, mas que o indigitado poderá invocar atenuantes, porque é réu primário com residência fixa. Num futuro próximo, terá direito à liberdade condicional, poderá estar saindo livre da prisão, pela leniência do sistema progressivo, e por bom comportamento. Todo detento tem direito à ressocialização; que não funciona, mas é assim. Igualmente, como é portador de necessidades especiais (vendeu um rim), poderá pleitear cargos nas empresas e entidades públicas pelo sistema de cotas, bem como frequentar universidades e garantir nossa opção pelo atraso.

E logo que o Mais-que-Perfeito sair da prisão terá emprego, vai encarar redução de salário, porque o auxílio prisional é bem maior do que o salário de um trabalhador livre.

É samba do crioulo doido mesmo. Nem tudo é perfeito, é preciso rasgar o verbo.

 
  
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