Matérial Especial
SAUDADE DO MEU PAI - 14/01/2013

Vanderlei Tomaz
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Publicada originalmente em 22/12/2011

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Já faz dois anos e a impressão que se tem é que aconteceu hoje de manhã. Tudo parece tão recente. A saudade se torna cada vez mais imensa e a dor da sua partida insiste em não terminar.
O 21 de dezembro, fim de primavera e primeiro dia do verão nos dará sempre esse sentimento da perda nunca superada.
Geraldo Tomaz foi Esposo, Pai, Avô, Amigo e Pastor nos melhores sentidos dessas palavras.
Chefe de família exemplar, atencioso e sempre presente. Amigo fiel e de uma generosidade que impressionava. Papai tinha 85 anos. Frequentemente, com ele conversava e registrava as suas lembranças e as incontáveis histórias. Da mesma forma, ouvia seus amigos e parentes. Como resultado de tantas conversas, escrevi o texto abaixo em sua homenagem. Trata-se de uma pequena biografia que, ao ser concluída, provocou-me muitas lágrimas de saudade e orgulho por saber tratar-se da história real de um grande homem. Que Deus nos ajude a seguir seu exemplo. Obrigado, Papai!

GERALDO TOMAZ

Geraldo Tomaz nasceu em 24 de maio de 1926, em Juiz de Fora, MG, em uma pequena casa nas imediações da antiga “Parada Pecuária” (na entrada para o atual bairro Barbosa Lage). Filho do lavrador de origem italiana Corintho Tomaz de Aquino e de Maria José Tomaz. Foi o terceiro dos quatro filhos do casal. Os demais irmãos eram Maria (a “Neném”), Belarminda (a “Belinha”) e Francisco.
Sua infância foi marcada por enormes dificuldades. Aos 7 anos trabalhava com o pai no lugar conhecido como Calundu (onde existe hoje o bairro Parque das Torres). Além do ofício de lenhador, seu pai cuidava da lavoura de arroz, milho, feijão e batata. No lugar, existiam duas casas: a da família e a do italiano Pedro Menon. Ali trabalhou até completar 11 anos, quando perdeu o pai, vitimado por água contaminada que bebeu próximo à atual barragem João Penido. Na ocasião, Corintho contraiu um mal conhecido como “febre dos macacos”, vindo a morrer em 11 de março de 1937.
Uma curiosa lembrança Geraldo procurou preservar: em outubro de 1930, no auge da eclosão da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder, seus pais – assustados com o movimento de tropas e tiros nas imediações – fugiram de casa de madrugada atravessando o Rio Paraibuna em uma canoa com os quatro filhos pequenos. O caçula, Francisco, havia nascido naquela semana. A família foi buscar abrigo na fazenda do Coronel Vidal. Este episódio lhe foi passado muitas vezes pela mãe.
Geraldo estudou pouco, mas a vida o ensinou muito. As oportunidades eram remotas, pois precisava trabalhar cedo. As primeiras letras aprendeu em uma escola que existia nas proximidades da fazenda da Remonta do Monte Belo. Ensino bem aplicado. Durante toda a vida, Geraldo apresentou uma leitura irretocável e o cuidado extremo com a gramática, seja escrevendo ou falando em público.
Com a morte do pai, a mãe Maria José assumia a grande responsabilidade de criar os quatro filhos menores. Seus avós maternos, Gabriel Marques e Maria Luiza Marques, passaram a ter maior presença na formação dos netos.
Gabriel era lavrador. Administrava a fazenda Quinta da Lage, do Coronel Manoel Vidal Barbosa Lage, de tradicional família, respeitado pecuarista e chefe político em Juiz de Fora. Morreu em 1962.

Homem de trabalho
Em 1938, aos 12 anos, foi trabalhar em uma tamancaria no bairro Jóquei Clube, do português João Nunes. Com Geraldo, também trabalhava sua irmã Belarminda. Em 1940, aos 14, trabalhou como retireiro em um grande curral que havia onde existe hoje o bairro Jóquei Clube II, e que pertencia ao português Domingos Luiz.
Em 1944, Geraldo viveu uma de suas maiores frustrações: desejando seguir a carreira militar, alistou-se para o exército brasileiro. Imaginava, com isso, partir com os pracinhas para os campos de batalha na Itália durante a II Guerra Mundial. Então veio a notícia-bomba: sua ficha foi recusada. Consideraram o jovem desnutrido e sem peso suficiente para participar da tropa. Vida que segue.
Em 1945, adquire sua carteira de trabalho que pela primeira vez é assinada. No mesmo ano – em 1º de março - passou a trabalhar na Cerâmica Juiz de Fora, que funcionava na Rua Olavo Bilac, no bairro Cerâmica. Ali, fabricava tijolos e manilhas, trabalhando de segunda a sábado. Na cerâmica ficou até 3 de abril de 1946.
Em Juiz de Fora a vida estava difícil e Geraldo foi tentar o mercado de trabalho do Rio de Janeiro. Na capital carioca, em outubro de 1947, no bairro de Engenho de Dentro, abria valas na rua para colocação de encanamento d’água. Durante um ano, ele trabalhou como servente para a Companhia Construtora Koteca. Ainda no Rio, no município de São João de Meriti, em 1949, trabalhou na fábrica de tamancos de Olívio Gouvêa. Tempo duro: de segunda a sábado, das 6 da manhã às 10 da noite, produzindo tamanco de embaúba. Batendo pregos com o tamanco apoiado na perna. Ali ficou um ano. Em Meriti, residiu em um cômodo da Rua Dona Emília. Durante seis meses, trabalhou em um bar da Rua da Matriz.
Seus primeiros anos no Rio reservaram-lhe um triste golpe: sua mãe ficara doente em Juiz de Fora. Quando a notícia chegou – com grande atraso - até Geraldo, ele retornou à cidade natal. Era tarde. A mãe havia falecido em 30 de março de 1949, e já estava sepultada.
De 1950 a 1952, a vida tomava novo rumo. O português Alfredo, abriu-lhe as portas do Restaurante Estoril, na mesma Rua da Matriz. Ali aprendeu a cozinhar. Depois do Estoril, passou seis meses em outro restaurante: o Caramurrai, de Manoel Rangel.
Em março de 1952, retornava a Juiz de Fora. Durante dois anos, fez bicos e ajudou o tio Belarmindo, o Tito, em seu bar no Jóquei Clube. Nessa época, fez curso para telegrafista dos Correios. Embora aprendesse o ofício, nele não chegou a trabalhar.
Maio de 1954: novo e definitivo emprego. Geraldo foi aprovado em uma seleção e passou a ser servidor federal. Passava a trabalhar na Fábrica de Estojos e Espoletas de Artilharia do Exército: a FEEA, em Benfica. Foi cozinheiro no rancho dos funcionários e no cassino dos oficiais.
Um cozinheiro de mão cheia! Preparava grandes e sofisticados banquetes. Às vezes, era acordado de madrugada em casa para preparar a refeição de alguma inesperada visita em residência de algum diretor da fábrica. Houve uma ocasião em que teve de aprender às pressas a fazer pratos árabes, a fim de atender uma delegação de oficiais e empresários do Iraque em visita à FEEA.
Na FEEA ficou até aposentar-se em janeiro de 1982. Convidado, voltou a trabalhar no mesmo ano e no mesmo lugar, agora chamado de Indústria de Materiais Bélicos do Brasil – Imbel (que substituiu a FEEA). Ali ficou até 1987, ao completar 61 anos de idade.

Homem de família
O ano de 1953 foi especial. Quando trabalhava em um bar no bairro Francisco Bernardino, Geraldo começou a perceber uma grata e periódica presença. Tratava-se de uma moça de 20 anos, moradora do lugar. Era Honorinda Dornelas de Souza, a “Nainha”.
Tecelã, Honorinda trabalhava na Companhia Industrial Mineira, na Avenida dos Andradas. De família grande – eram 13 irmãos, a moça despertou sua atenção e o desejo de conversar. Os olhos azuis e o perfil galanteador marcaram as investidas do rapaz. Seus pais, o lavrador Manoel de Souza Filho e a dona de casa Maria José de Assunção, aprovaram a relação. O moço era sério, trabalhador e tinha boas intenções.
Honorinda nasceu em 06 de janeiro de 1933, em Tabuleiro do Pomba (atual município de Tabuleiro/MG), então distrito de Rio Pomba/MG.
Do namoro, passando pelo noivado, até o casamento foram dois anos. Em 15 de janeiro de 1955, na Igreja de N.S. Lourdes, do bairro Francisco Bernardino (a antiga Creosotagem), finalmente se casaram. Nainha agora era a senhora Honorinda Dornelas Tomaz.
O casamento deu a Geraldo e Honorinda seis filhos: Janete (nascida em 26 de julho de 1956), Wiliam (nascido em 6 de dezembro de 1957), Elizabete (nascida em 18 de dezembro de 1960), José Maria (nascido em 26 de janeiro de 1962), Vanderlei (nascido em 29 de julho de 1964) e José Ronaldo (nascido em 6 de outubro de 1965). Todos os filhos nasceram na antiga Maternidade da FEEA ou na própria residência, com o auxílio das parteiras Dona Joana e Dona Penha.
Vida difícil. A família era grande e o salário irrisório. Geraldo completava o orçamento da casa vendendo roupas, salgados que fazia com a mulher, confeitando bolos para festas, e comercializando carros velhos e bicicletas. No seu portão, sempre havia encostado um Gordini, Aero Willys, DKW Vemag, Belcar, Variant, Brasília, entre outros carros de fácil negócio. Comprava o carro barato, consertava e revendia. Se não desse conserto, desmontava sozinho e as peças eram vendidas. Assim, os anos se passaram, os filhos cresceram e foram educados. Honorinda, a sua querida e inseparável Nainha, foi seu principal apoio durante todo o tempo.
Desde os primeiros anos do casamento morou em residências da FEEA: em casas dos conjuntos do extinto Ipase e em uma moradia que existia na antiga Parada Felício Lima (a “paradinha da FEEA”). Somente depois da aposentadoria conseguiu sua casa própria: um apartamento na Rua Marilia, em Benfica.
Aos filhos, somaram-se genro e noras que deram a Geraldo e Honorinda os netos: Priscila (falecida prematuramente), Corinto, Gustavo, Daniel, Felipe, Fernanda, Layla e Mariana.

Homem de fé e homem de bem
No trabalho, Geraldo era carinhosamente conhecido como “irmão” ou “maninho”. Talvez por sua crença ou mesmo pela amizade sincera que oferecia.
Religioso, pastor da Igreja Evangélica Assembléia de Deus (tendo concluído Curso de Bacharel em Teologia pelo Instituto Bíblico Ebenézer do Rio de Janeiro), Geraldo aplicou em todo o tempo as lições cristãs de solidariedade, fraternidade, fé, esperança, bondade, justiça e respeito. Sua conversão e batismo aconteceram em 1965.
Assistia aos mais necessitados que o procuravam como se fossem membros da própria família. Muitas vezes, era acordado à noite e saía apressado para aplicar uma injeção, levar um medicamento ou uma cesta de alimentos a alguma pessoa aflita. Nunca permitiu que um faminto em sua porta de lá saísse sem ser assistido. Houve ocasiões em que atuou como instrumento transformador de desamparados que bateram em sua casa. Pessoas que chegaram lá como mendigos, abandonados pela família, tiveram sua assistência: banho, alimento, vestuário, auxílio médico, regularização de documentos pessoais, orientação espiritual e teto. Homem de oração e otimismo, sempre teve a Bíblia como instrumento de propagação das boas novas. Geraldo sempre ensinava: “Se desejar dar uma cesta de alimentos a uma pessoa, leve até a casa dela, e entregue em um horário em que o vizinho não possa ver. Quando alguém pede uma comida, ele chegou no limite da necessidade e da humilhação. Não é correto querer aparecer como homem generoso em um momento da miséria humana. Jesus ensinou sobre a mão direita não saber o que a esquerda está fazendo.”
Geraldo sempre se apresentou como voluntário em projetos de assistência social da igreja, tendo, inclusive, participado da criação da Confederação de Irmãos Beneficentes Evangélicos (a CIBE, da Assembléia de Deus, localizada na Avenida Brasil, de Juiz de Fora).
O pouco estudo não lhe tirou o prazer da leitura. Lia muito. Memorizava longos textos e passagens bíblicas. Uma memória prodigiosa! Gostava de ler os jornais do dia e não perdia os programas de jornalismo e documentários da televisão.
Como evangelizador, foi responsável pela abertura de pontos de pregação do Evangelho de Cristo – no final dos anos 1960 e durante os anos 1970 - em diversos bairros de Juiz de Fora e, em especial, da zona rural da cidade. Valadares, Rosário, Penido, Igrejinha, Paula Lima, Dias Tavares, Palmital, Toledos, Chapéu D’Uvas, dentre outros, recebiam sempre suas visitas, ora chegando a pé, ora de bicicleta, carro ou no ônibus da linha. Orava nas residências pelas pessoas enfermas, distribuía folhetos com mensagens evangelísticas e pregava nas praças públicas. Como pastor responsável, construiu templos em Benfica, Vila Esperança, Valadares e em outros bairros de Juiz de Fora.
Muito dedicado às atividades da igreja, até a sua última semana em casa, Geraldo não deixou de cumprir o seu compromisso diário de comparecer ao templo da Assembléia de Deus, na Avenida dos Andradas – aonde chegou a ser vice-presidente e cumpria uma função administrativa. Homem de hábitos simples, não via prazer em receber homenagens e comendas. Sempre julgou sua vida como uma dádiva de Deus e que somente Ele – o Senhor – se fazia digno de louvores. Seu hino favorito era: “Mais grato a Ti”.
Geraldo Tomaz faleceu em 21 de dezembro de 2011, em Juiz de Fora, MG, aos 85 anos, depois de 55 dias internado no Hospital Monte Sinai. Seu sepultamento – no cemitério Parque da Saudade – reuniu centenas de amigos que assistiram a uma emocionante cerimônia e ouviram testemunhos de inúmeras pessoas que conviveram com ele e dessa amizade extraíram lições de vida e de solidariedade.


RETRATO DOS DIAS
Vanderlei Tomaz

Para Geraldo Tomaz, meu Pai


Sentado numa cadeira,
onde a varanda é um calendário,
um homem pensa.
Imenso,
do tamanho do mundo.

Nas estrias do seu rosto,
os anos em harmoniosas trincheiras,
são arrastados
numa febre elástica do tempo.

O tempo é seu auto-retrato.
O tempo e seu álbum de espinhos,
o tempo e seus caminhos grisalhos.

Ah, bom homem,
escondido atrás dos óculos!
E que agora na varanda,
banha a noite num suspiro,
manchando a fronte de lembranças.

Comentários:

William José Tomaz - Esperança - Ipatinga - MG - 20/01/2014
A saudade que no meu peito arde, é proporcional à esperança de revê-lo um dia...mesmo que, todos os dias eu tente ressuscitá-lo para conversar comigo...A impressão que tenho, é que, de alguma forma ele navega pelas nuvens viajando por todas as cidades onde se encontram mamãe, seus filhos, seus netos, etc. Meu pai, como disse-me o seu amigo Capanema no dia do velório "...o Maninho foi um anjo em nossas vidas...". Assim também o vejo: um anjo que caiu do céu em 1926, e retornou para lá em 2012, pois o GRANDE EU SOU precisava dele lá. Meu consolo nisso tudo, foi ter conhecido "O CARA"...na autêntica expressão da palavra.
  
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